Existe uma cena muito comum dentro das empresas.
Sempre que surge um problema, alguém diz:
“Chama o dono.”
O cliente reclama?
Chama o dono.
O fornecedor travou uma negociação?
Chama o dono.
O líder não conseguiu decidir?
Chama o dono.
A equipe ficou em dúvida?
Chama o dono.
Curiosamente, muitos empresários interpretam essa realidade como um elogio.
Afinal, ela parece demonstrar experiência, capacidade de decisão e importância.
Mas existe uma pergunta que raramente é feita.
E se a empresa estiver recorrendo ao empresário não porque ele seja indispensável, mas porque ninguém ao redor desenvolveu maturidade suficiente para decidir sem ele?
Essa mudança de perspectiva altera completamente o diagnóstico.
Durante muito tempo aprendemos a medir a importância de um líder pela quantidade de problemas que ele consegue resolver.
Talvez devêssemos começar a medi-la pela quantidade de problemas que deixam de depender dele.
Existe uma diferença enorme entre ser competente e construir competência ao redor de si.
O primeiro produz admiração.
O segundo produz crescimento.
Quando todas as decisões importantes sobem continuamente pela hierarquia, o problema raramente está apenas na falta de delegação.
Delegar é um comportamento.
A pergunta anterior é outra:
Por que as pessoas não sustentam boas decisões quando o empresário não está presente?
Em muitas organizações, a resposta não está na ausência de processos.
Está na ausência de maturidade.
Pessoas evitam assumir responsabilidade.
Adiam conversas difíceis.
Transferem riscos.
Esperam validação para decisões que já poderiam tomar.
Com o tempo, forma-se um padrão silencioso.
A empresa aprende que pensar é responsabilidade de poucos.
Os demais passam a executar, consultar e esperar.
O empresário, naturalmente comprometido com o resultado, continua resolvendo.
Quanto mais resolve, mais indispensável parece.
E quanto mais indispensável parece, menos espaço existe para que outras lideranças amadureçam.
É um ciclo.
O crescimento da empresa amplia sua complexidade.
Mas a maturidade das pessoas nem sempre cresce na mesma velocidade.
Nesse momento, o empresário começa a sentir os sintomas.
As decisões demoram.
Os líderes hesitam.
Os conflitos aumentam.
A comunicação perde qualidade.
A dependência cresce.
À primeira vista, parecem problemas diferentes.
Talvez sejam apenas manifestações diferentes da mesma causa.
Existe uma crença muito difundida de que grandes empresas são construídas por líderes extraordinários.
Talvez a afirmação mais precisa seja outra.
Grandes empresas são construídas por líderes capazes de desenvolver outras pessoas que também consigam sustentar boas decisões.
O verdadeiro teste de uma liderança não acontece quando o líder entra na sala.
Acontece quando ele sai.
Porque toda empresa revela, cedo ou tarde, aquilo que seus líderes ensinaram silenciosamente por meio dos comportamentos que reforçaram, toleraram ou corrigiram.
E talvez seja justamente por isso que algumas organizações continuam crescendo enquanto outras passam anos girando em torno da mesma pessoa.
A pergunta que permanece não é se sua equipe precisa mais de você.
A pergunta é outra.
Se você deixar sua empresa por duas semanas, ela continuará tomando boas decisões… ou apenas aguardará a sua volta?


